Acumuladores:
Uma Mente Ainda
Desconhecida No Brasil

Acumulador: a palavra por si só evoca a imagem de um indivíduo miserável,isolado da sociedade,que vive numa caverna que é um caos total.Seria muito bom se houvesse uma outra palavra para definir uma pessoa que acumula.
Mas não existe…

Infelizmente,o tema sobre acumuladores, aqui no Brasil, ainda é quase que totalmente desconhecido. Pouco se ouve a respeito e muitas vezes até já conhecemos alguém mas não sabemos o porque da pessoa ter este comportamento.

Como profissional de organização, desde o início da minha profissão, me interessei pelo assunto, talvez, pela sua complexidade e delicadeza.
Muito mais presente e divulgado nos países desenvolvidos -como os EUA-, até porque a “organização” tem o seu berço lá, cabe aqui ressaltar a importância do tema no sentido de esclarecer tanto as pessoas que sofrem por acumular quanto as pessoas que convivem com elas, sejam seus familiares, amigos,vizinhos, etc.

Para quem não tema mínima ideia do que se trata, irei escrever um pouco sobre a história.
Existem alguns casos de acumuladores antes da Grande Depressão nos EUA. Talvez, isso se dê parcialmente ao fato de que a grande maioria dos americanos tinham pouco dinheiro para adquirir um excesso de coisas.
Um dos mais notórios casos é dos reclusos irmãos Collyer.
Aqui está um trecho da história:

“Parece policial noir, e aliás daria um dos bons. No dia 21 de março de 1947, a polícia de Nova York foi chamada por vizinhos de um prédio na esquina da Quinta Avenida com a 128th Street, no Harlem, em Manhattan. Eles acusavam o mau cheiro que emanava do endereço, mais precisamente do apartamento onde moravam os irmãos Homer Lusk Collyer, que tinha então 68 anos, e Langley Wakeman Collyer, de 62. Eram figuras reclusas, consideradas excêntricas por quem morava ali por perto, e justamente por isso acabavam por despertar a curiosidade da vizinhança.

Quando chegou ao local e tentou entrar à força no apartamento, já que nenhum outro tipo de contato ou abordagem era possível, a polícia descobriu que não seria uma empreitada fácil. A porta da frente estava barrada por uma muralha de papéis, catálogos e entulho genérico. As janelas do porão estavam quebradas, mas protegidas por grades. A solução encontrada foi arrombar e entrar pela janela de um quarto no segundo andar. O cenário dentro do cômodo se comparava ao do andar de baixo: uma enormidade de caixas, papéis, objetos diversos, a estrutura de um carrinho de bebê, vários guarda-chuvas amarrados em um molho e todo tipo de material que se possa imaginar. O primeiro policial a entrar levou duas horas para engatinhar através do entulho e chegar ao corpo de Homer, encontrado sentado em uma cadeira, vestindo um roupão de banho azul e branco.

A perícia médica constatou que ele provavelmente morreu vítima de uma combinação de desnutrição, desidratação e complicações cardíacas, há não mais que dez horas, o que significava que o mau cheiro que exalava do apartamento não podia ser dele. Polícia e bombeiros seguiram tirando o entulho do local, na esperança de também encontrar Langley no apartamento. Cerca de 600 curiosos acompanhavam da rua os trabalhos. Dois dias depois, já haviam sido retiradas mais de 19 toneladas de lixo, papéis e tralha que os irmãos Collyer acumulavam compulsivamente. E nem sinal de Langley.

Nove dias depois, quando equipes ainda retiravam coisas do apartamento – já eram contabilizadas, então, cerca de 84 toneladas de entulho – rumores apontavam que o mais novo dos Collyer tinha sido visto pelos lados de Atlantic City. Teve início uma busca por Langley que cobriu nove diferentes Estados. E nada. No dia 8 de maio daquele ano, finalmente ele foi encontrado, no próprio apartamento, a poucos metros de distância de onde estava o cadáver de Homer, soterrado por uma pilha de catálogos telefônicos, livros e outros papéis. Seu corpo em decomposição havia sido parcialmente comido por ratos. A demora para se chegar até ele deveu-se, fundamentalmente, à dificuldade de remoção de tanto entulho.

Ficou constatado que ele havia morrido antes de Homer, e era dele, portanto, o mau cheiro que exalava da casa. Langley se esgueirava por um corredor entre as toneladas de objetos para levar água e comida ao seu irmão mais velho, que tinha problemas de locomoção, causados pelo reumatismo e porque havia perdido a visão em 1933 – vivia, portanto, praticamente inválido. O Collyer mais novo foi vítima de uma armadilha que ele mesmo preparou. Ao passar por ela, causou o desabamento da tralha sobre si e morreu esmagado. As armadilhas – havia várias pelo apartamento – foram feitas com o intuito de impedir a entrada de estranhos.

Foram retiradas ao todo da casa dos Collyer aproximadamente 140 toneladas de coisas indistintas que eles haviam acumulado ao longo dos anos: armas, 14 pianos, uma máquina de raio-X, a carcaça de um Ford T Model, muitos papéis, incluindo catálogos de telefone de datas vencidas, cerca de 25 mil livros e pilhas de jornais, mesas, cadeiras, caixas, órgãos humanos conservados em frascos, berços, violinos, acordeons e outros instrumentos musicais, garrafas de vidro, bolas de boliche, bicicletas velhas, gramofones, discos, camas, sofás, penteadeiras, relógios, quadros e tantos quantos mais objetos se possa imaginar, tudo à maneira de lixo compactado, além de oito gatos vivos.

O caso dos irmãos Collyer, pouco conhecido no Brasil, é referencial nos Estados Unidos do que se denominou compulsive hoarding – a acumulação obsessiva de qualquer coisa, não raro sem qualquer foco. O termo “Collyer Mansion” se tornou um jargão entre os bombeiros de Nova York e é usado até hoje. Durante décadas, Langley e Homer juntaram e mantiveram objetos em seu apartamento sem um propósito aparente. Progressivamente foram também se afastando do convívio social, transformando o próprio lar numa espécie de fortaleza inexpugnável, com direito às armadilhas. Por falta de pagamento, o serviço telefônico dos Collyer foi cortado em 1917, a água, a eletricidade e o gás, em 1928, o que significa que eles passaram os últimos 19 anos de suas vidas no improviso – um lampião a querosene para iluminar, uma engenhoca criada por Langley para gerar alguma energia e a água conseguida em um posto nas proximidades. Também a comida era obtida graças às andanças mendicantes do irmão mais novo pela cidade.”

Nem todas as pessoas que acumulam são como os irmãos Collyer.

O acumulador compulsivo tem graus de severidade diferentes. E dependendo da severidade, esta compulsão pode causar acidentes assim como se tornar uma ameaça à vida e à integridade física caso uma chamada de emergência ocorra e os socorristas fiquem impossibilitados de acessar a casa.

Sem perceber , o acumulador afasta as pessoas amadas, estressa as famílias inteiras, e contribuindo assim para o divórcio. Na área da saúde, o acúmulo causa problemas respiratórios, agrava alergias, perturba o sono e favorece dores de cabeça.

Os danos estruturais que são negligenciados na casa, causam sérios problemas de segurança, riscos à saúde e infestações de ratos, baratas ,etc.

Sob o ponto de vista econômico e financeiro, a compulsão acaba causando devastadores estragos no orçamento familiar, levando as famílias a um estado de dívidas interminável.

Nos EUA,- diferentemente do que acontece no Brasil-, a inabilidade em cumprir com as obrigações básicas em ser um proprietário ou inquilino responsável, tem levado muitos acumuladores a serem despejados das suas casas ou viverem sob a constante ameaça de perderem tudo, inclusive a guarda dos filhos.

Como disse no início, este assunto ainda está longe de ser divulgado ou até mesmo ser considerado como algo preocupante aqui. Mas não deveria, pois à medida que a população envelhece, o problema do acúmulo  se torna mais complexo.

As tendências em acumular podem dar início ainda na adolescência mas com frequência,o acúmulo não se manisfesta completamente até as pessoas atingirem a faixa dos 50 anos ou mais.

Estatisticamente, a incidência em acumular sem dúvida alguma irá crescer, e como profissional que lida com este tipo de desafio, acredito que a melhor maneira de conscientizar as pessoas que também lidam com o problema, seja através de um ser querido , amigo , vizinho, é através da informação.

A informação irá beneficiar qualquer pessoa que queira melhorar a qualidade de vida de alguém que acumula.

Todos nós precisamos juntar as nossas forças!

Membros das  familias, advogados, órgãos de proteção às crianças e aos idosos, ongs de proteção aos animais, departamentos de polícias, CVV, departamentos voltados para a área de saúde mental, entre outros, precisam se conscientizar de que este é um problema sério.

E nós, que atuamos como Profissionais de Organização temos uma vantagem neste ponto, quando se trata de problemas de acumulação.

Somos nós que estamos próximas destes indivíduos que sofrem silenciosamente, seja  nas suas casas, nos seus escritórios, prontas para dar a mão e ouvir o relato de todos os desafios que eles enfrentam.

Portanto, não se constranja em pedir ajuda, em falar das suas dificuldades! Temos muito a contribuir com as complexas soluções que um perfil acumulador apresenta.

Se você lida com uma pessoa acumuladora e precisa de ajuda ou queira saber mais a respeito, entre em contato comigo por email ou via Whatsapp.

Até breve!
Beijos,
Cintia

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